Os 5 principais desafios para a sustentabilidade da Economia Social

A Economia Social (ES), através das suas diferentes entidades, posiciona-se como um ator fundamental para a coesão social e para a geração de emprego. Para além disso, o setor desenvolveu uma capacidade surpreendente de dar respostas a problemas com elevado grau de complexidade que outros setores económicos, como as empresas privadas e o estado, não são capazes de resolver.

Embora seja notável a sua importância para a sociedade e o seu contributo para a riqueza nacional em Portugal – representando 3% do Valor Acrescentado Bruto (VAB) da economia, e também para o emprego, sendo 6,1% do emprego remunerado de acordo com a Conta Satélite da Economia Social (2016), para um dos especialistas do setor, Professor Rogério Roque Amaro em entrevista publicada no YouTube pelo Instituto Marquês de Valle Flor, em 2016, acredita que:

A ES falhou ao desenvolver o seu projeto económico, porque ora resvalou para o mercado, ou, por conta da ausência de um projeto económico, tornou-se subordinada ao estado.

As dificuldades em termos de financiamento e a garantia da sustentabilidade destas entidades a longo prazo é uma realidade preocupante e recorrente para os que atuam no setor.

Optar ou arriscar por fontes alternativas de financiamento (atividade-meio) que garantam a continuidade da atividade principal das entidades ainda parece configurar num caminho inseguro e incerto.

No entanto, novas iniciativas têm surgido com o objetivo de promover a reflexão e a partilha, de forma a abrir novos caminhos e trazer novas propostas para o setor – o que consideramos que são muito bem-vindas!

Uma destas iniciativas foi o Hackathon 100% colaborativo- Desenhar o Futuro da Economia Social que decorreu no passado mês de Abril, promovido pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, o qual uniu diversos profissionais da Economia Social com o objetivo de repensar os desafios do dia a dia do setor, sendo um deles, a sustentabilidade.

Durante as talks, vários desafios à sustentabilidade das entidades foram apresentados por especialistas da CASES, Portugal Inovação Social e Sair da Casca, o qual gostaríamos de destacar abaixo o que consideramos como os 5 principais:

  1. Resistência a inovação e ao empreendedorismo social.
  2. Dificuldades em termos de governança, gestão e gestão estratégica.
  3. Dificuldade em atrair a juventude.
  4. Inexperiência no trabalho de marketing e comunicação.
  5. Gastos elevados com recursos humanos

Os 5 principais desafios à sustentabilidade da ES:

1. Resistência a inovação e ao empreendedorismo social

A resistência a processos inovadores e ao empreendedorismo social encontra-se em muitas famílias da Economia Social. Muitas vezes esta resistência está relacionada ao receio que uma atividade “lucrativa” possa enfraquecer as doações e a relação com os apoiantes da causa social da entidade.

Para além disso, a resistência também está relacionada a aquilo que Azevedo e Couto (2012) chamaram de “cultura social”, no qual as organizações acostumadas a valorizar o financiamento público, desperdiçam outros tipos de recursos e respostas.

2. Dificuldades em termos de governança, gestão e gestão estratégica

Este desafio está intimamente ligado as competências gestionárias dos quadros de responsabilidade das entidades. A sustentabilidade também tem dependência profunda a esta questão. Segundo Freller (2014) uma das maiores dificuldades das entidades para a angariação de fundos assenta ao facto de ainda existir ausência de competências dos seus gestores e dos seus profissionais.

A baixa profissionalização da ES também é observada na ausência de estratégias a longo-prazo nas entidades. No Inquérito ao Setor Social (INE, 2018), demonstra que apenas 16,4% das organizações em Portugal realizaram o planeamento estratégico.

3. Dificuldade em atrair a juventude

As novas gerações ainda têm pouco conhecimento e contacto com o setor. Um grande desafio está em atrair as camadas mais jovens, prepará-los melhor para os desafios sociais do momento e aqueles que serão do futuro.

Promover a consciencialização dos jovens para que possam ver a Economia Social como um ecossistema alternativo de geração de emprego é uma mais valia para o futuro do setor.

4. Inexperiência no trabalho de marketing e comunicação

Apesar do conhecimento das entidades acerca da importância do marketing e da comunicação para o futuro das mesmas, muitas delas apresentam dificuldades em por em prática planos concretos nestas áreas, bem como referem ausência de recursos humanos especializados e dum departamento para este fim.

Importa-se referir que no âmbito da sustentabilidade das entidades, o marketing e a comunicação realizam um papel essencial, uma vez que são responsáveis pela promoção da imagem da entidade, assim como pela divulgação dos resultados e atividades, e que podem gerar um impacto positivo na sua visibilidade e promover a angariação de fundos (Campos et al, 2015 – Diagnóstico das ONG em Portugal).

5. Gastos elevados com recursos humanos

A diferença entre os gastos com recursos humanos do setor privado e do setor da economia social é um facto considerável para se enquadrarem com um dos desafios à sustentabilidade do setor. Estima-se que uma IPSS gastará 60% do seu valor em recursos humanos, enquanto o setor privado gastará apenas 45% para os mesmos recursos.

Em termos de valor da remuneração, também há diferenças no setor. Este encontra-se 15% abaixo da média nacional.

Outro desafio para o setor nesta questão, está ligado ao facto de manter os recursos humanos especializados e ao mesmo tempo a qualidade do serviço prestado. Para isso, pode ser fundamental as entidades pensarem em alternativas para criação de receitas próprias e diminuirem a sua dependência do Estado.

A partir de uma reflexão sobre estes 5 desafios apresentados, e são apenas alguns, é possível perceber que a questão da sustentabilidade não está apenas voltada para uma lógica unidirecional, tratando-se unicamente da estrutura financeira, mas assume um caráter multidimensional, o qual para garantir a sustentabilidade financeira das entidades, será preciso ir mais além, combinar receitas, assumir uma gestão eficaz, definir uma missão clara para a entidade, e obter parcerias numa dinâmica de cooperação inter e intrasetorial.

Este caminho é apenas feito caminhando, sem pender para um lado (Estado) ou para o outro (Mercado), de forma a não correr o risco de haver um desvio da missão que fundamenta o trabalho das entidades. Abordar a questão de uma forma holística será essencial para que se consiga alcançar um equilíbrio no setor, especialmente entre o capital humano, social e financeiro.

Para nos colocarmos no trilho da sustentabilidade das entidades da Economia Social, concordamos com a frase de Filipe Almeida do Portugal Inovação Social, onde durante o evento Hackathon 100% colaborativo- Desenhar o Futuro da Economia Social afirmou:

“A sustentabilidade da Economia Social depende da melhoria dos alicerces fundamentais do setor, de forma que o mesmo seja capaz de alcançar novos financiamentos.”

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